Diferenças Culturais e de Relacionamentos entre Brasil e Canadá


Devido ao cenário social do Brasil nos últimos anos, muitas pessoas se mudam do país ansiosas por encontrar pessoas diferentes – mais educação, respeito, liberdade e individualidade. Mas mesmo ansiando por essas diferenças, ainda o que é diferente pode causar muito estranhamento e choque cultural quando o brasileiro chega no Canadá. Muito desse choque cultural se torna surpreendente e positivo, e outras partes acabam sendo somente toleráveis.

Todo mundo fala sobre as diferenças culturais em ambientes de trabalho, escola, etc. Mas como muitos brasileiros têm vindo para o Canadá já em fase adulta e com família, nem todo mundo tem a oportunidade de vivenciar outros tipos de relacionamentos com os nativos. Tudo pode ser bastante diferente; a forma como as pessoas fazem amigos, se conectam e se comunicam. E claro, isso varia muito de pessoa para pessoa por ser uma experiência muito individual e com muitas exceções a regra, pois não há como generalizar.

Eu escrevo aqui sobre a minha visão pessoal baseando-se na experiência minha e de amigos próximos aqui. Como estamos falando de diferenças culturais e jeitos de ser, essas não são verdade absolutas que refletem toda a população, mas sim uma visão geral sobre o assunto.


Amigável X Amigo

Apesar de o povo canadense ser globalmente conhecido por sua educação e gentileza, existe uma grande diferença entre ser amigável e ser amigo. Muitos canadenses são extremamente amigáveis, mas não significa que eles serão seus amigos.

A maioria das pessoas por aqui tem no máximo 5 amigos próximos, e o resto eles consideram conhecidos. Talvez lendo isso, você pense “eu também tenho poucos amigos de verdade”. A questão é que mesmo um brasileiro que tem só “2 amigos de verdade” acaba fazendo uma festa de aniversário de 20 pessoas, facilmente. Porque tem os 2 amigos de verdade + os cônjuges de cada um, + o outro amigo da turma, + um casal que sempre anda junto, + os irmãos e irmãs, um colega de trabalho mais próximo, e por aí vai. Aqui em geral, isso não acontece sempre, muitas pessoas tem apenas um restrito grupo de amigos e mesmo os maridos e mulheres desses amigos muitas vezes não convive tão intimamente com o grupo principal.

Somente relembrando: isso não é uma regra, mas acontece com muito mais frequência do que no Brasil. As pessoas mantém relacionamentos muito mais restritos e são menos abertas para fazer novas amizades verdadeiras na fase adulta.

Ps.: Após publicar este texto, eu recebi alguns comentários a respeito de brasileiros que atualmente moram na região francesa do Canadá, relatando que os hábitos sociais são um pouco diferentes por lá. De um modo geral, eles tem festas mais longas, são mais calorosos e com uma cultura mais “européia” e próxima a nossa. Eu nunca morei no Quebec, mas de fato já ouvi falar várias que existem muitas diferenças entre a região inglesa e a francesa.


Privacidade

No Brasil nós nos acostumamos a conhecer novas pessoas na escola, trabalho, academia e no dia seguinte já adicionamos ela nas redes sociais. No final do ano, acabamos deletando uma centena de conhecidos no Facebook.

No Canadá, as pessoas são muito mais reservadas e querem discrição e privacidade nas redes sociais. Muitos deles não colocam o nome e sobrenome no perfil, e usam somente iniciais, justamente para não serem achados facilmente por parentes e colegas de trabalho. Não significa que eles tenham algo a esconder, muitos deles muitas vezes sequer são ativos na postagem de conteúdo nas redes. Mesmo assim, eles gostam de proteger sua privacidade e pensam 3 vezes antes de fazer ou de aceitar um pedido de amizade na internet.

Acho que o Brasileiro também já está indo pra esse caminho, mas ainda é bem menos fechado e restrito que o canadense.


Ansiedade, Fobia Social e Depressão

Os povos latinos tem a fama de serem muito calorosos e festeiros, e isso de fato é verdade. Claro que festas e pessoas extrovertidas existem em todos os lugares, mas no geral o canadense é muito mais introvertido – ou menos espalhafatoso – que o brasileiro. Por consequência dessa maior introversão, eles tendem a ser mais tímidos, mais discretos e reservados do que nós.

Mas muito dessa introversão também está relacionada a ansiedade e fobia social. Talvez o povo canadense não seja necessariamente mais ansioso do que outros povos, mas aqui o assunto sobre ansiedade é amplamente discutido e é menos um tabu no Canadá do que no Brasil.

Com isso, as pessoas tem também mais liberdade e menos vergonha de admitir que tem problemas mentais e buscam auxílio de médicos, orientadores e tratamentos psiquiátricos. Em basicamente todas as escolas e ambientes de trabalho, existe o diálogo para conversar sobre problemas mentais e encontrar uma solução de acomodar a pessoa da melhor maneira possível. As pessoas se permitem mais poderem exercerem o direito de ser ansiosas e introvertidas, digamos assim.


Independência e Maturidade

Eu tenho um amigo brasileiro que sempre me falou que achava o nível de maturidade dos canadenses um pouco menor do que os brasileiros, e o tempo e convivência me fizeram crer o mesmo. Por um lado, eles começam a morar sozinhos mais cedo – aqui não tem muito marmanjo morando com os pais até casar, e quase nunca alguém mora com os pais ou sogros após o casamento. A maioria deles com 18 anos entra na universidade e já vai morar sozinho, mesmo que ainda tenha apoio financeiro da família durante os estudos.

Mas por outro lado, eles continuam mais inocentes e infantis por mais tempo do que nós. Os primeiros empregos no mundo corporativo começam somente após o término da faculdade, os relacionamentos sérios começam mais tarde, e inclusive a vida sexual também.


Relacionamentos Amorosos

O canadense costuma ter um início da vida sexual tardia se comparada com o brasileiro, e durante a vida sexual eles têm muito menos parceiros. Pode parecer estranho pra nós, mas mesmo beijo de língua não é algo pra todo mundo rsrs. Por ter uma sociedade mais liberal e menos atrelada a uma religião específica, muitos casais moram juntos por muitos anos antes de casar – se é que se casam. E muitos também optam por não terem filhos.

No início de um novo relacionamento, eles demoram muito mais tempo para apresentar o namorado(a) para a família. Sabe aquela coisa que vemos em filmes americanos, onde os padrinhos e pais dos noivos só vão se conhecer na véspera do casamento? Não é algo tão longe da realidade, de fato.

As amizades tendem a ser também bem mais independentes, no sentido de que nem sempre tem aquela coisa de um casal ser super amigo de outro casal. Muitas pessoas tem o seu próprio círculo de amigos, o cônjuge tem outro círculo, e eles podem se conhecer e saírem juntos, mas sem criar tanto vínculo entre casais de melhores amigos, como nós costumamos a fazer.


Sanidade Mental X Solidão

Desde que eu mudei para o Canadá, eu comecei a ter uma visão diferente do que é doença mental. Na América do Norte em geral, todo latino que conheço que mora aqui, comenta que se espanta com a quantidade de doentes mentais vistos nas ruas.

Eu não fui exceção. No começo, eu pensei que o grande motivo é que a diferença cultural gera esses distúrbios mentais com o passar do tempo: as culturas norte americanas são milhões de vezes mais individualistas e menos invasoras do que as latinas. Isso resulta em famílias menos próximas e pessoas com um número de amigos muito menor que no Brasil. Muito, muito menor mesmo. Há uma quantidade gigante de pessoas com fobias sociais que têm crises de ansiedade extrema de ter contato com outras pessoas, mas que ainda assim obviamente anseiam por atenção e contato humano.

Nós latinos, pelo contrário, somos extremamente invasivos. Nos metemos na vida um dos outros, temos muito amigos e conhecidos – tem muita gente pra tomar conta da nossa vida e pra gente tomar conta da vida deles.

Mas depois de um tempo, comecei a ver que essa tendência ao isolamento, não é um dos únicos motivos para o número desproporcional de doentes mentais nas ruas por aqui. Manicômios foram banidos há décadas atrás, e não é prática comum de internar alguém em uma instituição contra a vontade mais. O que faz sentido, quando você para pra pensar no conceito real de um hospício… É algo totalmente bárbaro, desumano. Mas por outro lado, a falta de instituições como essas, gera um grande número de pessoas com problemas mentais abandonadas nas ruas, pedindo esmolas. Elas conseguem sempre ter acesso a comida e alguma assistência nos abrigos, mas caso elas não queiram se internar para tratamento, (e não se tornarem super violentas a ponto de precisarem ser presas), nada pode ser feito.

Existem várias instituições que através de doações e de auxílio do governo conseguem ajuda e até mesmo moradia para essas pessoas. E em cidades menores esse serviço social consegue ser bastante eficiente. Infelizmente, nas grandes cidades como Toronto ou Vancouver, ainda existe muita gente que não conseguem ter o devido apoio e acabam marginalizadas. E isso também é uma realidade em várias grandes cidades dos Estados Unidos.

Ter essas pessoas nas ruas me causa muita insegurança e medo, pois elas são instáveis. Mas interná-las e prendê-las a uma cama, dopadas com remédios, é animalesco. Não tem como voltar ao passado e dar atenção e educação de forma retroativa para reverter os danos mentais causados. E o tratamento exige muito tempo e dedicação que poucas pessoas estão dispostas a dar e poucos governos estão preocupados em financiar. Mesmo em países de primeiro mundo.


Conceito de Pessoas Brancas e Raças

Dez entre dez canadenses acreditam que pessoas brancas só existem na América do Norte e nas regiões colonizadas por britânicos! Então se você é brasileiro, saiba que você pode não ser considerado branco aqui, mesmo que você ache que é.

Vamos por partes: na América do Norte, o termo “white people” não é usado somente para designar cor de pele, mas sim todo um conjunto de comportamento, costumes e privilégios. No Brasil por exemplo, as pessoas são mais categorizadas por classe social como um todo. As divisões, apesar de tudo, são um pouco menos raciais e mais sociais. Mas mais além da questão social e histórica, parte do termo “white people” também designa por vezes, pessoas sem graça, retraídas, sem ritmo e sem apelo. Não é incomum aqui você ouvir falar alguma piada por exemplo: “ele não sabe temperar o frango porque ele é branco e só usa sal” ou “ele não sabe dançar porque é branco”.


Por conta disso e pelo próprio desconhecimento do que está acontecendo no resto do mundo, os canadenses não entendem que você pode ser branco de olhos azuis e ser argentino. A partir do momento que você fala que é brasileiro, eles te colocam na categoria “latin” mas não “white person”, mesmo que você seja do melhor estilo “alemão”. E isso não significa que eles tenham preconceito com isso – muitos deles acham SUPER legal o fato de você não ser “white”. Mas o entendimento sobre o que é ser branco pra eles, é quase relacionado a um comportamento mais frio do que à cor da pele. Eu vejo aqui uns branquelos descendentes de gregos e portugueses, se referindo a eles mesmos como “non-white person”.


E eu tive essa discussão com vários canadenses, jovens de cabeça aberta, descendentes de britânicos ou não. Alguns deles formados em ciências políticas e super antenados sobre sociedade e cultura, advogando a favor de imigrantes e multi culturalismo – e ainda assim era difícil de entrar na cabeça deles que existe gente branca na América Latina.

Quando eu tenho de explicar que eu sou metade branca, metade asiática E latina, quase explode o cérebro deles haha. Pra conseguir explicar melhor a salada de frutas, eu conto da colonização portuguesa, da escravidão, e da imigração mais tardia italiana, alemã e japonesa no Brasil. Adicionalmente, tive de explicar que sim, somos latinos, mas não somos hispânicos como o restante da América Latina.

— Percepções são coisas que mudam o tempo todo e variam de acordo com a pessoa. Essas são as que eu tenho sobre relacionamentos, sociedade e amizade em 5 anos de Canadá. Você concorda com elas?


Texto originalmente publicado em Dez/2019 em meu blog pessoal.

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