Speech Therapy – Onde Termina o Sotaque e Começa o Problema na Pronúncia?

Atualizado: 21 de jan. de 2020


Desde antes de eu chegar no Canadá, eu sempre ouvi todo mundo falando que por aqui existem pessoas com sotaques de todos os cantos do mundo e que todos eles são bem aceitos. E isso é de fato, verdade. Mas saindo da escola de inglês, eu comecei a perceber que mesmo as pessoas com a melhor boa vontade do mundo em conversar comigo, às vezes estavam ali apertando os olhos enquanto eu falava, fazendo esforço para conseguir entender o que eu estava dizendo. E não era somente o “broken english”, com uma conjugação errada aqui, ou ali. Mas sim uma palavra que eu não conseguia pronunciar corretamente, ou que soava estranho.


No dia a dia, as pessoas acabam entendendo tudo o que você fala, seja por mímica, por contexto ou mesmo porque eles ficaram familiares com a sua forma de comunicar. Mas em algumas situações a gente simplesmente paga mico, ponto final. E a sua própria auto confiança em falar, vai pro saco com isso. Por vezes eu vejo algumas pessoas na defensiva, argumentando que existem outros imigrantes tem sotaque muito pior que o nosso, que tem nativo chato que faz questão de não te entender, que devemos ter orgulho da nossa origem e do nosso sotaque – e tudo isso é verdade. Mas isso não deveria ser justificativa de ninguém para não melhorar a pronúncia..


Com pouco tempo no Canadá, eu comecei a perceber que existe uma linha MUITO FINA entre sotaque e pronúncia. E fui vendo que muito do que nós não sabemos pronunciar direito, foram coisas que os nativos de inglês aprenderam em fase pré-escolar. Lembra quando estávamos na escolinha, e a professora juntava B + A e a gente precisava repetir “ba”? Pois é, isso é exatamente o que nos faz falta, mas quase nenhuma escola de inglês vai ensinar. Mesmo os melhores professores de inglês no Brasil muitas vezes não tem esse conhecimento, porque ele na verdade faz parte de algo mais “de raiz” de cada língua: a fonética.

O que é Speech Therapy? 

Um belo dia, estava eu no meu trabalho checando os benefícios que eu tinha do insurance (convênio) da minha empresa. E vi ali um negócio chamado “Speech Therapy”. Tinha outros tipos de terapia ali, mas essa me chamou atenção. Eu entrei nos detalhes e vi que tinha uma quantidade substancial de cota que eu poderia gastar com essa terapia, então resolvi entender melhor o que era. Foi aí então que eu descobri que tinha Speech Therapy para redução de sotaque. Como disse uma amiga minha, pelo nome parece que é terapia em grupo que você fala dos seus problemas, ou então curso de oratória haha. Mas não, na verdade era fonoaudiologia. 


Eu não conhecia absolutamente ninguém que tinha usado ou ouvido falar desse treco, mas estava lá na minha cobertura de ‘insurance’ e comecei a pesquisar. Muitas das clínicas trabalham somente com crianças que têm problema na fala. Mas várias outras trabalhavam com imigrantes para a redução de sotaque e melhora de pronúncia.

A Speech Therapy no meu caso, foi composto de uma sessão inicial de avaliação (assessment) para a terapeuta entender melhor as minhas deficiências linguísticas e minha proficiência no ‘speaking’. Para facilitar, eles tinham uma tabela com os principais problemas dos nativos de cada língua (português, espanhol, coreano, mandarim, japonês, russo, etc). Eu vou compartilhar aqui como foi o resultado do meu assessment e as sessões seguintes.


Inglês e Suas Malditas Vogais

Eu nunca soube muito bem a diferença de pronúncia entre “beach” e “bitch”. Assim como não sabia entre “bed” e “bad”, “men” e “man”, “bit” e “beet”. Era o famoso “só sei que nada sei”. E assim foi indo a vida, porque ninguém nunca deixou de me entender por causa disso. 


Até que um belo dia, eu tive uma famigerada reunião no trabalho na qual eu me perdi totalmente por não saber essa diferenças. Eu trabalho com Advertising e Marketing em uma empresa que vende artigos de corte e costura e aviamentos. Eu estava começando a implementar algumas ferramentas de publicidade online, com base em leilões de palavras-chave relacionadas aos produtos da empresa, e estava explicando o funcionamento disso para a chefia. Por ironia do destino, eu precisei usar as palavras “bid” (leilão) e “bead” (miçanga) na mesma frase. E NINGUÉM ENTENDEU NADA. Já não bastasse ser um assunto de difícil entendimento para quem não está acostumado com tecnologia, ainda por cima se agravou porque eu não sabia pronunciar as diferentes vogais – até porque na escolinha de inglês no Brasil, a gente aprende que é tudo a mesma coisa. Depois de muito esforço, minha colega de trabalho canadense entendeu e pronunciou corretamente, mas eu ainda não sabia direito o que exatamente eu estava tentando imitar da pronúncia dela.


Após a minha primeira consulta na Speech Therapist, eu recebi um relatório com os meu problemas. Eu sabia que vogais eram o meu calcanhar de Aquiles, mas meu queixo caiu quando eu li a seguinte frase:

Portuguese has a nine-vowel system. English can have up to fifteen vowels. The following errors are typically a result of the extra English vowels that are not present in Portuguese.

Na minha cabecinha, nossa língua era muito mais baseada em vogais do que o inglês, especialmente porque temos aqueles sons únicos como “ão”, “ã”, “ãe”, “é”, “ê”, etc. Eu no fundo acreditava que quando eu ouvia uma leve diferença entre palavras, era uma questão de sotaque nativo de inglês, e não que era um fonema diferente. Após receber o relatório, a terapeuta me mostrou um jogo online muito interessante para aprender a diferenciar os sons de vogais:


https://www.englishaccentcoach.com/index.aspx


Caso você pretenda jogar esse joguinho, aconselho a selecionar dois fonemas de vogais de cada vez como por exemplo /i/ e /ɪ/, ou então /æ/ e/ɛ/ para fazer o cérebro entender bem a diferença. A primeira vez que eu joguei, eu coloquei tudo ao mesmo tempo e virou uma salada de frutas.


Consoantes mudas e com som no Inglês (Voiced e Voiceless consonants)

De tantos erros de gramática e pronúncia que nós cometemos, mas sem sombra de dúvidas, o que mais dói no ouvido dos nativos em inglês é o nosso “édi” no final de palavras no passado simples. Muitos canadenses não irão te falar o quanto isso soa estranho logo de cara, mas assim que eles tiverem um pouco de intimidade, será uma das primeiras coisas que eles irão tentar te corrigir.


Uma vez, eu estava tomando frappuccino com um amigo. Eu fui falar do chantilly – whipped cream, e de repente bateu um espírito brasileiro bem forte e eu falei “uipédi” cream, com ênfase de sílaba tônica no “pé”. O coitado, sem maldade, teve um surto de riso enquanto tomava o frappuccino, quase engasgou e morreu. Por isso eu gosto de enfatizar a melhora da pronúncia, pode salvar vidas!! Haha Fora isso, eu tive feedback de vários outros amigos canadenses em diferentes momentos, a respeito de como falar o “ed”, mesmo quando eu tinha a certeza de que eu estava falando certo. Como eu não sabia falar direito, mas ao mesmo tempo eu não queria pronunciar ca-da le-tri-nha como nós costumamos fazer, eu comecei a simplesmente meio que cortar o som do “ed” geral, e no final das contas não parecia mais que eu estava falando no tempo verbal correto. Uma daquelas coisas que a gente acha que engana no speaking!


Durante a speech therapy, eu trouxe essa questão para a fonoaudióloga, e ela começou a tentar entender qual é a minha relação linguística com as consoantes. Primeiro, ela me falou que existem “voiced consonants” e “voiceless consonants”, e ela perguntou o que eu entendia que era isso. Minha resposta automática, foi a de falar que voiceless consonants são mudas. Spoiler: eu estava errada. Logo em seguida, ela perguntou sobre o que eu acho que faz uma consonante ter “voz”, e eu disse que basicamente é quando você junta uma consoante + uma vogal, você tem uma sílaba com uma voiced consonant. Spoiler-não-tão-spoiler: eu estava errada de novo.


O meu entendimento agora após a Speech Therapy, sobre o que são essas voiced e v